Certamente você deve estar se perguntando: qual a relação disso tudo e por que um título tão estranho? No final acredito que isto fará algum sentido.
Você se lembra daquele episódio que causou uma repercussão enorme na mídia, de uma jovem estudante que parou a universidade onde estudava porque usava uma roupa, digamos, fora do comum naquele dia? Pois bem, é aí que entra a questão passível de ser estudada cientificamente ou pelo menos com um olhar mais clínico.
Desde o fato, o que foi debatido foi apenas a questão de qual razão Geisy Arruda tinha para usar aquele traje em um local considerado inadequado para tal, quando sabia que com isso poderia causar alarde. E de fato foi o que aconteceu.
A questão é outra. A dúvida que fica no ar é: “Por que justo naquele dia e com aquela pessoa aconteceu isso tudo?”. Ora, ela não deve ter sido a primeira e nem a última a usar um vestido numa universidade (eu sei que não era um vestido tão normal). De onde veio tal motivação para euforia e para aquela energia que fez com que a universidade parasse por tanto tempo e que o assunto rendesse matérias dedicadas em veículos importantes, fazendo com que a estudante despertasse para a fama de um dia para o outro?
E qual a relação disso com as Vuvuzelas e a Comunicação? A resposta é: toda!
Ambas as situações envolvem algo contagiante, meio inquestionável, capaz de tirar pessoas de suas rotinas e fazer com que tomem atitudes – não exatamente das mais rotineiras. Não se trata de uma comparação entre gritar por alguém e torcer por um país. O foco da análise está na vibração que contagia, contamina e faz com que, em segundos, todos estejam juntos explodindo como numa reação em cadeia.
Estas situações são as que classifico como sintomas de uma epidemia. São aquelas em que, para fazer parte, é preciso estar contaminado; e essa contaminação só ocorre em épocas epidêmicas. Como a Copa do Mundo, por exemplo.
Hoje não é difícil ver cidadãos comuns caminhando para mais um dia de trabalho normal, com apenas uma diferença bem peculiar: algum indício no jeito de trajar ou agir que facilmente é percebido como “o clima de Copa do Mundo”. Seja vestindo a camisa da seleção brasileira de futebol ou usando bandeiras estiradas nas janelas de seus carros, enfim, aquele clima de felicidade e de alegria que nós brasileiros conhecemos muito bem.
Eis a questão: Você não acharia estranho uma pessoa toda vestida de verde e amarelo em qualquer outra época? Imagine os carros passando buzinando e gritando “Brasil!!!” durante a época de Páscoa, por exemplo? É algo inimaginável, que provavelmente te irritaria. E por que hoje, no momento em que ocorre um jogo do Brasil, as vuvuzelas não te incomodam tanto? Esse é o diagnóstico, você está contaminado e, durante a Copa do Mundo, vive um momento de epidemia.
Agora parece que ficou mais clara a relação entre a energia que fez com que vários jovens estudantes naquele momento gritassem como se não houvesse amanhã, sem se sentirem ridículos cometendo tal ato. Eles foram contaminados por uma epidemia instantânea e a euforia foi o principal sintoma. E nós que estávamos longe da epidemia, portanto imunes, ficamos sem entender e muitas vezes criticando um momento de causalidade inconsciente e efeito inconsequente.
Mas o que isso tudo tem a ver com a comunicação? Mais uma vez: tudo!
Hoje, fala-se muito em comunicação viral, mas na maioria das vezes não nos damos conta de onde estão as verdadeiras epidemias. Nesse momento, é óbvio que estamos numa epidemia de Copa do Mundo. Podemos dizer que esta é uma epidemia sazonal, e sempre podemos contar que ela traga uma enxurrada de novas TVs, mais gordura e mais barriga para os cervejeiros. Mas isso não é o suficiente, e é aí que entra a necessidade de estar sempre um passo à frente, de ter a capacidade de prever de onde pode surgir um sintoma e poder diagnosticá-lo rapidamente para agir e comunicar o que queremos. Uma agência de publicidade precisa ter uma retaguarda especializada para detectar estes sintomas, montar estratégias e trabalhar em cima destas “oportunidades” de forma eficiente.
Nesse momento, os grandes heróis estão sendo os vendedores ambulantes, os verdadeiros cientistas nessa corrida pelo diagnóstico. Nesta Copa, mais do que em todas que já vivi, vejo e ouço vuvuzelas, cornetas e buzinas 24 horas incessantemente e ambulantes contentes, independentemente de o Brasil estar jogando ou não.
Para se ter ideia, a palavra “vuvuzela” já chegou a ser citada mais de 300 vezes por minuto no Twitter. Este é um exemplo de detecção dos sintomas.
Nessa epidemia também temos sintomas curiosos, por exemplo: o revival que aconteceu com os álbuns de figurinhas, que há muito tempo andavam esquecidos pela criançada e pela juventude. De uma hora para a outra, voltaram a ser uma “febre”. Senhoras, senhores, crianças, pais ou jovens são facilmente encontrados nos corredores de shoppings trocando suas figurinhas. O que torna o fato muito curioso é que hoje vivemos na era do fácil acesso à imagem: com apenas alguns cliques, eu consigo ver a figura que eu quiser e, no entanto, as pessoas continuam a se manter atraídas pela obsessão de ver o álbum completo mesmo sem o “fator curiosidade” que ocorria em épocas em que a imagem não era tão facilmente encontrada. Outro ponto curioso é que vemos grande quantidade de pais ajudando seus filhos a completar seus álbuns e trocar suas figurinhas. Estes são exemplos de como explorar um sintoma de uma epidemia sazonal. No caso da Copa do Mundo, os álbuns que são algo nostálgico, afetam o lado emocional desses pais que no momento em que ajudam seus filhos estão revivendo e passando o que viveram aos filhos. O chamado saudosismo.
E onde encontrar essas epidemias? Em todos os lugares! Quando digo em todos os lugares, não é hipérbole. Em casa, no celular, no carro, no jardim, na rua, metrô, ônibus, em tudo.
E é claro, principalmente na internet. Essa edição vem deixando história nas Copas do Mundo graças à participação massiva dos usuários de Redes Sociais. A cada segundo, são bilhões de comentários no Twitter com hashtags que refletem um sintoma específico. Esse é o ponto onde os sintomas começam a ficar mais difíceis de ser identificados, pois, embora pareça mais fácil, na verdade é preciso identificar o sentimento envolvido em cada frase para chegar a um diagnóstico preciso. Isto sem contar que lidamos com várias epidemias simultaneamente e subepidemias, como o CALA BOCA GALVAO e CALA BOCA TADEU SCHMIDT, que vêm crescendo muito rapidamente e se desdobraram para várias outras manifestações, como o #diasemglobo.
É esse o enorme campo no qual cabe aos especialistas da agência estudar e dedicar todas as suas habilidades sensoriais para saber agir e explorar.
As epidemias estão realmente em todos os lugares e não ocorrem com data prevista, como acontece com a Copa do Mundo. Elas podem acontecer a qualquer momento como aconteceu na universidade. E na internet ocorrem com velocidade surpreendente.
É por isso que o trabalho de uma agência de publicidade é estar atento aos sintomas e, principalmente, à vulnerabilidade dos públicos a essas epidemias que só fazem nos ajudar.
Danilo Araújo – Designer de Interação da Rae,MP