Na manhã do último sábado, uma manchete na Folha de S. Paulo me deixou espantado: “Aluna põe lição no Facebook e é suspensa”. A matéria tratava sobre uma garota de 15 anos que criou um grupo no Facebook para compartilhar as respostas/soluções de todas as atividades passadas pelos professores do colégio carioca pH. A escola descobriu e pressionou a aluna a apagar a página dizendo que, caso contrário, seus pais seriam presos por crime cibernético. Ela não apagou o Grupo e foi mandada para casa de táxi. Sua mãe, agora, está processando o colégio.
Obviamente, a conduta da escola em pressionar e suspender a aluna foi completamente errada. Mas essa situação revela algo pior: o despreparo dos profissionais de educação em lidar com o uso da internet e das redes sociais no ambiente pedagógico. Se a aluna pode discutir um assunto com os colegas em um trabalho de grupo, por exemplo, por que não pode fazê-lo na internet?
Se alguém fosse transportado de um passado remoto para hoje, a única instituição que reconheceria seria a escola, onde quase nada mudou.
Uma coisa é fato: o modelo atual de ensino está ultrapassado. As escolas, como nós conhecemos hoje, foram criadas no final do Século XVIII, começo do Século XIX, e seguiram exatamente o modelo de linha de produção criado na Revolução Industrial: crianças nascem, entram e saem da escola com a mesma idade, “aprendendo” sempre as mesmas coisas. O problema é que, ao contrário disso, cada um tem suas habilidades, seu modo e seu tempo de aplicá-las. E isso não é desenvolvido e aproveitado na escola.
Para ilustrar a situação, vale aquele clássico exemplo: enquanto um aluno com facilidade em Língua Portuguesa precisa se esforçar ao extremo para “aprender” Matemática (seno, cosseno, tangente, cossecante… lembram?), um outro que lida bem com números deve estar extremamente preocupado em como redigir uma boa redação. Tudo isso por culpa, não dos nossos professores, mas de todo um conjunto de fatores que trouxe e manteve o sistema de ensino nesse padrão.
Um exemplo perfeito de como as escolas deveriam ser é a Escola da Ponte, em Vila das Aves, Portugal. Considerada modelo mundial de educação, a instituição (que, a propósito, é pública) foge de todos os padrões de educação. Nada de alunos agrupados por faixas etárias em salas de aulas, aprendendo um conteúdo “enlatado”. Lá, a escola é dividida em espaços de trabalho que qualquer um dos alunos matriculados pode ter acesso para trabalhar em grupo – de acordo com os SEUS interesses -, para compartilhar e aprender.
Se existe planejamento do currículo escolar? É claro. Ele é definido pelos orientadores, em conjunto com os alunos – a palavra “professor” não se aplica por lá. Também é assim que se estabelecem as regras de convivência e os direitos e deveres de alunos e orientadores. A Reunião de Pais e Mestres também sai de cena: na Escola da Ponte, as reuniões com os pais são mensais e não servem apenas para divulgar o desempenho dos filhos aos seus responsáveis, mas também para que estes acompanhem de perto e com frequência o andamento de toda a escola.
Se você, ao ler tudo isso, está pensando que no Brasil uma escola como essa é inviável, se enganou. No bairro do Butantã, aqui na capital paulista, a EMEF Desembargador Amorim Lima foi a primeira escola brasileira (e talvez a única) a fugir do padrão e adotar o sistema de educação da Escola da Ponte. E, claro, deu e está dando certo até hoje.
Infelizmente, não são todas as escolas que hoje são assim e, tenho certeza, vai demorar muito pra que isso aconteça. Talvez só meus netos possam estudar numa Escola da Ponte. Mas até lá, ficar de braços cruzados não é o melhor a se fazer. Pequenas iniciativas podem mudar o modo de como o aluno enxerga escola e, conseqüentemente, torná-la um ambiente agradável para discutir o mundo, fazer amizades e, principalmente, preparar o aluno – em todos os aspectos – para a vida adulta.
Não me sinto estimulado para ir à escola. Vou por obrigação. Escola, hoje, é só mais uma burocracia pela qual eu tenho que passar.
No modelo atual de ensino, uma simples atividade em dupla torna a sala de aula um verdadeiro inferno para alunos e professores, pois vemos isso como uma oportunidade para conversar sobre coisas que não são pertinentes à aula. Mas a solução é simples: se fôssemos educados desde o começo para compartilhar conhecimento, e não sermos apenas máquinas receptoras de informação, isso não aconteceria.
O mesmo serve para a internet, a tecnologia e as redes sociais: elas já fazem parte da vida dos alunos e proibi-las no ambiente escolar é como dar murro em ponta de faca. O ideal seria incorporá-las à vida estudantil, educando os alunos a usar essas “novidades” da forma correta (nada de cartilhas, pelo amor de deus!) para que elas sejam mais um instrumento de aprendizagem e não um motivo de dispersão e brigas entre professor e aluno em sala de aula.
Uma escola que realmente prepara o aluno para o futuro é aquela que estimula o que ele tem de melhor, sua criatividade, e não a que o obriga a fazer coisas que ele não precisa. Para mudar, são necessários apenas um pouco de vontade e dedicação. Com essa base, o resto é consequência. Vamos mudar?
Caso você queira se aprofundar mais no assunto, ou apenas ter uma ideia de como especialistas em educação veem essa situação, sugiro três links:
Este aqui, é uma pequena palestra do escritor britânico Ken Robinson, que critica e aponta soluções para a educação atual (e que inspirou este post);
Este outro é uma entrevista do educador e dirigente da Escola da Ponte ao Itaú Cultural, onde ele explica tudo sobre o projeto;
Por fim, este último, onde o blog Foco em Gerações entrevistou dois estudantes universitários brasileiros para saber como eles veem as suas salas de aula.
Gabriel Justo


