Cadê o nosso pensamento pelo bem da cidade?

Nos últimos dias, duas coisas me chamaram muito a atenção. No caderno de economia de um jornal de grande circulação de São Paulo, um anúncio de página dupla comunicava aos leitores uma oportunidade “imperdível”: seis mansões de cerca de 1.000 m² em um condomínio fechado, a poucos passos do Parque do Ibirapuera. Além da proximidade com o principal parque da cidade e outros itens de conforto – como várias suítes, lareira, sistemas de automação e aspiração central -, o anúncio destacava também elevadores privativos e nove vagas de garagem.

De início, já devo deixar claro que a minha intenção não é, de maneira alguma, generalizar e criticar uma determinada classe social. Mas o anúncio, veiculado praticamente no mesmo dia em que o jornal noticiava a inauguração de uma rede de ciclovias/ciclorrotas no mesmo bairro (Moema), já foi o suficiente pra me inquietar: de que adianta morar a alguns passos do Ibirapuera, se você vai se trancar em um dos seus nove carros para andar – ou melhor, ficar preso no trânsito – pelo resto da cidade? É realmente necessário que uma mesma família possua tantos veículos assim?

A outra coisa que me chamou atenção foi uma matéria do Jornal Nacional que divulgava uma pesquisa sobre mobilidade urbana no Brasil, e que também noticiava a implantação das ciclovias em Moema – um projeto piloto que pode se espalhar para o resto da cidade. Em um dos vários depoimentos feitos por moradores à reportagem, uma senhora, com um certo ódio da nova ciclovia, dizia, ou melhor, gritava ao repórter que suas clientes milionárias nunca andariam “de salto alto e bicicleta” pela cidade.

Se as clientes da senhora andariam ou não de bicicleta, isso não é problema nosso. O que me espantou neste caso foi a forma egoísta e individualista de pensar da entrevistada. Pensamento esse que, infelizmente, ainda é forte em uma sociedade movida pelo hábito do consumo individual desenfreado. Mesmo não tendo a Prefeitura interferido no direito de ir e vir das “clientes milionárias” ao implantar as cliclofaixas, que podem e com certeza vão beneficiar milhares de moradores de São Paulo, a mulher reclamou. Direito dela de reclamar, direito da população de ter alternativas ao trânsito caótico da capital paulistana, principalmente levando-se em conta o fato de que andar de bicicleta é uma prática 100% sustentável.

Agora, imagine só como ficaria São Paulo com nove carros por família, sem nenhum meio de transporte alternativo, com socialização apenas nos grandes parques? Não tão legal, tenho certeza. Campanhas sobre o uso consciente do trânsito, incentivando o uso de meios de transporte limpos, seriam interessantes. Porém, não deveriam ser uma necessidade, já que pensar no coletivo sempre ajuda a melhorar – e muito! – a qualidade de vida de todos os cidadãos. ;)

Gabriel Justo

Assista abaixo a reportagem completa veiculada pelo Jornal Nacional, da Rede Globo.

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